13.7.09

Gostei disto. Da devoção e dos seus dizeres.

O aloquete não me pareceu ser coisa genuína e de quem tem fé.

As flores são de plástico, mas paciência. Tanta como a que pedem os caminhos da Serra entre Videmonte e a Senhora de Assedasse.

Hei-de voltar e levo-Lhe o cacho de uvas mais doces. Já estão a crescer no quintal e são para aquela Senhora: ninguém lhes vai tocar. Só Ela.




1.7.09

Bilhete aos filhos com as palavras de adormecer



A pétala azul soltou-se no vento
voou foi voando aos círculos aos círculos

a andorinha bicou-a

sei um ninho
e é azul


Há palavras também azuis
doidas como os sonhos.
Sorriem-nos à noite
e dormem connosco
sonhos sábios

Ao primeiro sol,
vão indo, vão indo,
olhando de lado
a dizer o caminho do mar.

Os olhos do mar são azuis.
Como eram os vossos sonhos.


28.6.09

Cartas da tarde


Vens à casa todos os dias
ficamos a ver o pinhal
até o ar ficar mais doce?

Jura!

27.6.09


Vi-te a colher framboesas,
ai, Deus!

E era quase noitinha,
ai, Santa Maria!

Ai, Deus, os frutos vermelhos!
Santa Maria me valha!

15.6.09


Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
(Daniel Faria)


No princípio não era o Verbo.

Era assim:
o sol começou a nascer
e trazia-te pela mão
sol pequenino
e foste a primeira palavra,
a que espero o dia todo.
Não guardei a manhã.

Quando chegar,
hei-de imolar o melhor cabrito.

8.6.09


Porto, 4 Fevereiro 1993

A ausência dos meus amigos é, de todos os
desesperos, aquele que mais me aflige.
É como a erva calcada dos campos:
uma ameaça contra a respiração.

(Daniel Faria - O Livro do Joaquim - Edição e Prefácio de Francisco Saraiva Pinto - quasi)

Nota: Daniel Faria morreu no dia 9 de Junho de 1999

2.6.09

(Fotografia de Fernanda - http://matebarco.multiply.com/)

O monge que conheci tinha:
uma horta
uma tigela
um livro de versos

e uma flor.

Um dia, tiraram-lhe a flor:
a horta secou-se
e a tigela ficou bebedoiro de pardais.

O monge está no céu:
agora
põe um verso nalgumas manhãs

flor nossa de cada dia.

25.5.09

Corremos na areia
e ficas sempre para trás!

Outro modo de te ver
alga água e
lume

22.5.09

Em lembrança

Alguns permaneceram – e permanecem – católicos. Quase todos deixaram de o ser. Alguns tiveram ainda posições de relevo, como leigos, na Igreja Católica. Quase todos ficaram nas margens d'Ela. “Na expectativa” (en úpomoné, palavra grega donde o termo vem) como um dia disse estar Simone Weil, cujo luminoso ascetismo também tanto nos marcou? Não posso falar por outros. Falo apenas por mim. Agora que tanto narrei, revejo aquele de nós que mais cedo caiu – Cristovam Pavia, que se atirou para debaixo de um comboio em 1968, aos 33 anos – e releio um poema dele. Acabo como comecei com versos. E são estes:

Voltarei à penumbra fresca da igreja
Ancestral, silenciosíssima e vazia,
Aonde está pousado o teu altar:
Doce mãe Maria...
E ajoelhar-me-ei,
E fecharei os olhos sem pensar...
Que a minha oração nada mais seja!
Basta descansar.

Apetece-me pensar que um dia será assim.

(João Bénard da Costa; Nós, os vencidos do catolicismo – Edições Tenacitas – É assim que se acaba o livro - O poema tem o título A Nossa Senhora e é do livro 35 Poemas)

9.5.09

Sol de Maio
cerejas no teu peito

Vem daí

2.5.09

Estou sentado à tua porta
dou-te os bons dias todas as tardes

Vais ficar de guarda à casa
e diremos bom dia um ao outro

Nunca digas
nesta casa não entrarei

Sentas-te à minha porta
e o quintal é cor do céu

À minha porta não há lama
ficaste lá e o teu cheiro
tu és a minha Sulamita

às vezes dói o pôr do sol.


26.4.09

Bilhete

(Foto de Marco Pedrosa)

Grande se vê o mundo do alto do monte.
Não quero o tamanho do que vejo
quero-o da minha medida.
Vou para casa.
Dormir.

Quando chegares, a porta está aberta.
Podes entrar.

12.4.09

Abro os olhos
a água traz desenhos que desenhámos,
pele lisa ainda
- julgava-os delidos

O mar guardou-os
está a pôr as pétalas no pé donde,
bem-me-quer-mal-me-quer,
em anos verdes,
as fomos soprando em desenhos de abandono

Se fosse de pôr flores no cabelo,
amantes,

íamos recolhê-las
bem me quer,
- e éramos luz,

lágrimas orvalho brilho nos olhos
- e tu no agasalho das minhas pálpebras



10.4.09

Pietà


(Pintura de João Alexandre - a partir da Pietà da Igreja de São Tiago, Belmonte)

Assim, Jesus, venho encontrar estes teus pés,
que outrora foram pés de adolescente,
quando eu tos descalçava e os lavava a medo;
como se emaranhavam em meu cabelo
como corça branca em moita de espinheiros.

Assim eu vejo teus membros nunca-amados
pela primeira vez nesta noite de amor.
Nós ambos nunca nos deitámos juntos,
e agora é só admirar e velar.

Mas como as tuas mãos estão laceradas - :
E não é, Amado, de eu tas ter mordido.
Teu coração está aberto, e pode-se entrar nele:
e devia ter sido só minha a entrada.

Agora estás cansado, e a tua boca cansada
não deseja a minha boca dorida - .
Jesus, Jesus, quando foi a nossa hora?
Que singularmente nos perdemos ambos!

(Rainer Maria Rilke: Poemas - As Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu. Selecção e tradução de Paulo Quintela -ASA)

9.4.09

Uma amizade é manchada assim que a necessidade leva a melhor, mesmo que por um instante, sobre o desejo de conservar, num e noutro, a faculdade de livre consentimento.
(...)
A amizade é o milagre pelo qual um ser humano aceita olhar à distância, e sem se aproximar, o próprio ser que lhe é necessário como um alimento. É a força de espírito que Eva não teve; e, contudo, ela não tinha necessidade do fruto. Se ela tivesse tido fome no momento em que olhava o fruto, e se, apesar disso, tivesse permanecido indefinidamente a olhá-lo, sem dar um passo na sua direcção, teria realizado um milagre análogo ao da perfeita amizade.

(Simone Weil - Espera de Deus ; trad. de Manuel Maria Barreiros - Assírio & Alvim)